segunda-feira, 25 de abril de 2011

VERSOS LIVRES # 18 - PARTE UM

No post de hoje, poemas que foram publicados originalmente no fanzine Versos Livres, edição 18  e de Adriana Manarelli, extraído do site Telescópio Negro . Na saideira, um poema meu  . 

VERSOS 18 

AGORA
NÃO MAIS AGORA
Aricy  Curvello

o implacável ardor que é viver
enquanto grassa
tudo o que passa

implacável ardor
que não se cansa
na linha do destino o fogo  dança
o implacável ardor apenas dança
o sonho a cada sonho 
mais informe
a vida mais torta a cada vida
eu te amei mais do que te amava
amor com amor se apaga
outras maçãs outras manhãs
anos enganos
sobre o fio da navalha dança
o vacilante coração do instante

Aricy é referência no poema contemporâneo. Mais informações sobre esse excelente poeta no Jornal da Poesia 
 

-

AOS VÍCIOS
Gregório de Matos

Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.

Já sinto que me inflama e que me inspira
Talia, que anjo é da minha guarda
Dês que Apolo mandou que me assistira.
Arda Baiona e todo o mundo arda
Que a quem de profissão falta à verdade
Nunca a dominga das verdades tarda.

Nenhum tempo excetua a cristandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para falar em sua liherdade.
A narração há de igualar ao caso
E se talvez acaso o não iguala
Não tenho por poeta o que é Pegaso.

De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente
Sempre se há de sentir o que se fa1a.
Qual homem pode haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia
Não chore, não suspire e não lamente?

Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um e outro desconcerto
Condena o roubo, increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto
Que não elege o bom, nem mau reprova
Por tudo passa deslumbrado e incerto.

E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem e o mal vituperado
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço e repousado:
-Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.

Néscio, se disso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazaras
Musas, que estimo ter, quando as invoco.
Se souberas falar, também falaras
Também satirizaras, se souberas
E se foras poeta, poetizaras.

A ignorancia dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não  por não ter dentes.

Quantos há que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receosos?
Uma só natureza nos foi dada
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou e esse de nada.

Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos
Quem maior a tiver do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais chitom, e haja saúde.

-

MALANDRAGEM
Cazuza / Frejat

Quem sabe eu ainda sou uma garotinha
Esperando o ônibus da escola sozinha
Cansada com minhas meias três-quartos
Rezando baixo pelos cantos
Por ser uma menina má
Quem sabe o príncipe virou um chato
Que vive dando no meu saco
Quem sabe a vida é não sonhar

Eu só peço a Deus
Um pouco de malandragem
Pois sou criança e não conheço a verdade
Eu sou poeta e não aprendi a amar

Bobeira é não viver a realidade
E eu ainda tenho uma tarde inteira
Eu ando nas ruas, eu troco um cheque
Muda uma planta de lugar
Dirijo meu carro
Tomo o meu pileque
E ainda tenho tempo pra cantar

mulher-escrevendo-no-jardim-pintura-sem-nome-de-autor


SEM TÍTULO
Telma Scherer

nesta faina de escrever
me perco em melodias
em cefaléias vãs
procuro o poema puro
desfaço os feitos
refaço defeitos
procuro o barulho da chuva
desligo o som
alivio a pressão nas têmporas
depois volto na velha teima
e teimo comigo e com outros
que nem sei se lerão
algum dia
faço-desfaço
tento dormir meu sono-verso
mas sempre uma palavra
incomoda
e traz de volta o berço
do rarefeito, no ar .

Extraído do jornal "Vaia", de Porto Alegre, RS. Mais poemas da gaúcha Telma, vocês podem ler no blog dela em http://telmascherer.blogspot.com/ 

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CONVITE À MARÍLIA
Manuel Maria Barbosa du Bocage

Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus úmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste:

Varrendo os ares o sutil nordeste
Os torna azuis; as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros, e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste:

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo:

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

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CORAÇÃO DE SABEDORIA
Adriana Manarelli

A cada esgar de prata
O funeral de um medo.
Na teia translúcida
Se recolhe, o inatingível.
As tempestades
São apenas o refugo
De núcleos obsoletos.
Essa terra não vela natimortos.

Na arena enferrujada
De cadáveres rubro-negros,
A tuculência aborrece e dorme.
Na imersão límpida a percepção profunda,
Depressões, cabelos de espuma,
Sabedoria real do absoluto.

Isso é o dogma:
Desafia as perguntas —
Indiscutível nesga
Na pele de léguas tórridas.
Achincale dourado
Sobre tudo,
Cada vez mais
Até a perfeição
Do silencioso
Alvo.

Extraído do site Telescópio Negro do ativista cultural e advogado Everi Carrara.  A poetisa Adriana é de Araçatuba, SP.

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VELHOS AMIGOS
Touché    

revivemos o passado
e entre risos paramos o tempo .
sobre o futuro : só
o que irá em nossas lápides

touche.sp@uol.com.br
http://poetasdeguarulhoseoutrosversos.zip.net

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