terça-feira, 6 de março de 2012

APONTAMENTO

silencio3

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso. 
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
 
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim. 

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio? 

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. 

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária. 

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.

E os deuses olham-o especialmente, pois não sabem por que ficou ali.

Álvaro de Campos

Publicado na edição nº 25, do fanzine Versos Livres, editado em Guarulhos/SP. O V.L. é aperiódico,de distribuição gratuíta. Textos, críticas e sugestões podem ser enviados para o meu email, touche.sp@uol.com.br

Esse poema foi publicado originalmente na revista Presença, n.° 20, Abril-Maio de 1929.

A análise do poema "Apontamento" pode ser lida em…..http://www.umfernandopessoa.com/an%C3%A1lises/poema-apontamento-alvaro-campos.htm

Álvaro de Campos (Tavira ou Lisboa, 13 ou 15 de Outubro de 1890 — ?) é um dos heterónimos mais conhecidos do poeta português Fernando Pessoa. Este fez uma biografia para cada um dos seus heterónimos e declarou assim que Álvaro de Campos: «Nasceu em Tavira da Serra Grande, teve uma educação exemplar de Liceu; depois foi para Glasgow, Escócia, estudar engenharia naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente Médio de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inactividade.»
Era um engenheiro de educação inglesa e origem inglesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte da África. Entre todos os heterónimos, Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo de sua obra  (fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81lvaro_de_Campos )

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