quarta-feira, 25 de junho de 2014

BORGEANO

DOUGLAS OKADA - No sítio pela manhã - Óleo sobre tela - 40x50cm

Manhã de domingo.
Visito Os Olhos de Borges
(*)
para sentir-me vivo.

Embora manhã
de pólen e sol
há sombras na brancura dos lírios.

A tristeza reside
naquilo que vejo
e não me pertence.

E meus olhos divisam
domingo de giz
na morte das horas.

(*) Livro do poeta Jaime Vaz Brasil
Lari Franceschetto

Ilustração: Douglas Okada

terça-feira, 17 de junho de 2014

Biblioteca recebe nome de Larí Franceschetto

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Em 2013, no dia 11 de novembro,  foi realizada a solenidade que oficializou o nome da biblioteca da Escola Municipal de Ensino Fundamental Senador Alberto Pasqualini de Biblioteca Larí Franceschetto.

O evento contou com a presença de familiares do poeta, a secretária municipal de Educação e Cultura, Elis Regina Perachi Favero, o presidente da Câmara de Vereadores de Veranópolis, Moisés Pertile, e os vereadores Irineu Machado dos Santos, Lirio Soares, Luis Carlos Comiotto, Rudimar Caglioni e Vladis José Scorsatto, a diretora da escola, Ivete Grando, professores, funcionários e alunos do educandário. Na oportunidade, uma aluna leu o histórico do homenageado e um grupo de alunas encenou a obra ‘Fotografia’, de Larí.

O nome da biblioteca foi definido por um Projeto de Lei Legislativo, de autoria de todos os vereadores, como uma forma de homenagear o poeta e jornalista que faleceu no mês de fevereiro e deixou um legado de sucesso.

Confira fotos da solenidade e outras informações em
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.619518091423408.1073741985.136831159692106&type=1

quarta-feira, 11 de junho de 2014

ADEUS

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Adeus, meu amor, logo nos desconheceremos. Mudaremos os cabelos, amansaremos as feições, apagarei seus gostos e suas músicas. Vamos envelhecer pelas mãos. Não andarei segurando os bolsos de trás de suas calças. Tropeçarei sozinho em meus suspiros, procurando me equilibrar perto das paredes. Esquecerei suas taras, suas vontades, os segredos de família. Riscarei o nosso trajeto do mapa. Farei amizade com seus inimigos. Sua bolsa não se derramará sobre a cadeira. Não poderei me gabar da rapidez em abrir seu sutiã. Vou tirar a barba, falar mais baixo, fazer sinal da cruz ao passar por igrejas e cemitérios. Passarei em branco pelos aniversários de meus pais, já que sempre me avisava. O mar cobrirá o desenho das quadras no inverno. As pombas sentirão mais fome nas praças. Perderei a seqüência de sua manhã - você colocava os brincos por último. Meus dias serão mais curtos sem seus ouvidos. Não acharei minha esperança nas gavetas das meias. Seus dentes estarão mais colados, mais trincados, menos soltos pela língua. Ficarei com raiva de seu conformismo. Perderei o tempo de sua risada. A dor será uma amizade fiel e estranha. Não perceberei seus quilos a mais, seus quilos a menos, sua vontade de nadar na cama ao se espreguiçar. Vou cumprimentá-la com as sobrancelhas e não terei apetite para dizer coisa alguma. Não olharei para trás, para não prometer a volta. Não olharei para os lados, para não ameaçá-la com a dúvida. Adeus, meu amor, a vida não nos pretende eternos. Haverá a sensação de residir numa cidade extinta, de cuidar dos escombros para levantar a nova casa. Adeus, meu amor. Não faremos mais briga em supermercado, nem festa ao comprar um livro. Não puxaremos assunto com os garçons. Não receberemos elogios de estranhos sobre nossas afinidades. Não tocaremos os pés de madrugada. Não tocaremos os braços nos filmes. Não trocaremos de lado ao acordar. Não dividiremos o jornal em cadernos. Não olharemos as vitrines em busca de presentes. O celular permanecerá desligado. Nunca descobriremos ao certo o que nos impediu, quem desistiu primeiro, quem não teve paciência de compreender. Só os ossos têm paciência, meu amor, não a carne, com ânsias de se completar. Não encontrará vestígios de minha passagem no futuro. Abandonará de repente meu telefone. Na primeira recaída, procurará o número na agenda. Não estava em sua agenda. Não se anota amores na agenda. Na segunda recaída, perguntará o que faço aos conhecidos. As demais recaídas serão como soluços depois de tomar muita água. Adeus, meu amor. Terá filhos com outros homens. Terá insônia com outros homens. Desviará de assunto ao escutar meu nome. Adeus, meu amor.

Fabrício Carpinejar

Ilustração: Sérgio Helle