domingo, 27 de julho de 2014

Cantiga dos Moleques Fruteiros

Severin-Roesen-Still-Life-with-Fruit-10-

Pedrinho tem fome de mato,
das frutinhas que tantas dão por lá:

Cajuí, taperebá, araticum e cajá
Cambuci, guabiroba, cagaita e maracujá

Juca menino erradio
pulou a cerca do sítio,
e lá se foi, frutas a roubar:

Pindaíva, marôlo, sorvinha e biribá
saguarají, feijoa, sapoti e joá

Gustinho não poupa ninguém
nem atina se a fruta é veneno;
se tem polpa pouca
ou se nem polpa tem,
a de vez ele come,
a passada também:

Mangaba, guriri, tucum e butiá
uarutama, bacupari, marmelinho e ingá

Renato é um bicho-do-mato:
chafurda nas matas,
rompe pelos florestins
sabe o tempo de cada fruta,
e deita sozinho a fazer seus festins:

Babaçu, inajá, catolé e bacuri
sapota, cupuaçu, araçá e cacauí

Fernandinho é moleque mateiro:
gosta é de pelar pé de árvore
no pomar da avó.
É fruta que não acaba tão cedo
e lá vai ele, arteiro, trepar no arvoredo:

Grumixama, cubíu, marmixa e abiu
guaburiti, pitangatuba, murtinha e camu-camu

Saltam riacho, cerca de roça,
mata fechada e o que se lhes dá;
Comem de tudo e tudo sem pressa,
sorvendo o bom doce de tudo o que há:

Acumã, pequiá, jameri e jaracatiá

aboirana, curriola, fruta-de-tatu e cambuiú.

Sammis Reachers

Azul Caudal
http://azulcaudal.blogspot.com.br/

Ilustração: Severin Roesen (1815-1872, Germany)

terça-feira, 15 de julho de 2014

QUISERA O AMOR FOSSE FÁCIL

Julio-Romero-De-Torres-_Tristeza-Andaluza-also-known-as-Melancholy-_

QUISERA O AMOR FOSSE FÁCIL,
COISA DE APENAS UM DIA,
QUE PASSASSE NUM LAMPEJO
QUE FOSSE APENAS SEXO E ORGIA.

QUISERA NÃO FOSSE SENTIMENTO,
QUE TREME PERNA E CORAÇÃO,
QUISERA O AMOR FOSSE FÁCIL,
FOSSE FRACO DE INTENÇÃO.

FOSSE LEVADO A REBOQUE,
FOSSE TIRADO NUM BANHO,
FRÁGIL COMO MAQUIAGEM,
FOSSE PEQUENO EM TAMANHO.

FOSSE DOR QUE DÓI BEM POUCO,
FOSSE FÁCIL DE FALAR,
QUISERA FOSSE TIRADO,
DA LITERATURA O VERBO AMAR.

VALENTINA FRAGA

Ilustração: Julio Romero De Torres

Confira outros textos da grande Valentina em http://www.usinadeletras.com.br/exibelotextoautor.php?user=VALENTINA

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sexta-feira, 4 de julho de 2014

UMA CERTA ARTE

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A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.

Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.

Elizabeth Bishop
(tradução de Nelson Ascher)

Do livro : ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.)

Ilustração: Iderval Tenório