quarta-feira, 14 de maio de 2014

COTOVIA

CENA V. Jardim de Capuleto
Entram Romeu e Julieta, em cima, na janela.

JULIETA- Queres ir embora ?... O dia ainda não está próximo...Era do rouxinol e não da cotovia a voz que feriu o fundo receoso de teu ouvido...Todas as noites canta naquela romãzeira. Acredita, meu amor, era o rouxinol.

ROMEU - Era a cotovia, mensageira da aurora,e não o rouxinol !.. Olha, meu amor, que raias invejosas de luz separam as nuvens no Oriente longínquo...Os círios da noite já se queimaram e o jucundo dia está, de pontas de pés, no brumoso cimo das montanhas...Preciso partir e viver, ou ficar e morrer.

JULIETA- Aquela claridade longínqua não é a luz do dia, eu sei...É algum meteoro que o sol exala para que seja o portador da tocha nesta noite e te ilumine no teu caminho para Mântua.Fica, portanto!... Não tens necessidade de partir.

ROMEU- Que importa que me prendam, que me matem? Serei feliz, assim, se assim o quiseres. Direi que aquele ponto acinzentado não é o olho do dia, mas o pálido reflexo do diadema da alta Cíntia, e também que não foi a cotovia, cujas notas a abóbada celeste tão longe ferem sobre nossas frontes. Ficar é para mim grande ventura; partir é dor. Vem logo, morte dura! Julieta quer assim. Não, não é dia.

     JULIETA — É dia; foge! A noite se abrevia. Depressa! É a cotovia, sim, que canta desafinada e rouca, discordantes modulações forçando e insuportáveis. Dizem que ela é só fonte de harmonia; não é assim, pois ora nos divide. Há quem diga que o sapo e a cotovia mudam os olhos. Oh! quisera agora que ambos a voz também trocado houvessem, pois ela nos separa e, assim tão cedo, como grito de caça mete medo. Oh vai! A luz aumenta a cada instante.

     ROMEU — A luz? A escuridão apavorante.

     (Entra a ama.)
     AMA — Senhora!

     JULIETA — Ama?

     AMA — Vossa mãe se dirige para cá. Sede prudente; já raiou o dia, como podereis ver. (Sai.)

     JULIETA — Então, janela, que o dia entre no quarto e a vida fuja.

     ROMEU — Adeus, adeus! Um beijo, e desço logo.
     (Desce.)

William Shakespeare
”Romeu e Julieta”

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sexta-feira, 9 de maio de 2014

"..o pássaro possível..."

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o pássaro possível
em minha mão
é mudo

feito de silêncio e asas
sobrevoa tudo
como se tudo fosse sua casa

e nada

depois se recolhe e
se guarda
na fôrma da minha mão
vazia;
pousada

Eunice Mendes

Eunice Mendes é natural de Santos/SP. Formada em Jornalismo. Edita com Walmor Colmenero, a revista literária artesanal POETIZANDO, a folha poética A POETISA e o zine ÁRVORE AZUL, pelo selo ARTESANIA. Possui vários livros de poemas organizados e registrados na Biblioteca Nacional. Tem poemas publicados em vários jornais, revistas, zines e sites.
contato: walmordario@ig.com.br ou revistapoetizando@yahoo.com.br

Confira uma entrevista da poetisa concedida ao site Alegria de Ler, em http://alegriadeler.blogspot.com.br/2006/06/entrevista-com-eunice-mendes.html

Ilustração : Maurizio Bongiovanni
http://obviousmag.org/archives/2010/07/passaros_surrealistas_de_maurizio_bongiovanni.html

segunda-feira, 5 de maio de 2014

"... SÓ SE DAVA BEM COM ANIMAIS..."

Camponês com cavalo, 1948 – José Marques Campão (Brasil, 1892-1949). Óleo sobre tela, 54 x 65 cm. Colecção Particular

Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais.Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado,confundia-se com o cavalo, guardava-se a ele. E falava uma linguagem cantada,monossilábica e gutural,que o companheiro entendia. A pé, não se aguentava bem. Pendia para um lado,para o outro lado, cambaio,torto e feio. Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos - exclamações,onomatopéias. Na verdade, falava pouco. Admirava as palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas.

Graciliano Ramos
"Vidas Secas"

Ilustração: José Marques Campão

quarta-feira, 23 de abril de 2014

SABIÁ

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No seu canto piedoso
Sabiá vive a implorar
o dia em que, glorioso,
a Paz veremos chegar

Henny Kropf
in : " Chuva Lírial de Trovas"

“Poetisa, trovadora, escritora e pesquisadora, Henny Kropf nasceu em Cantagalo, em 1922, e dedicou toda sua vida às letras. Pertence a 50 entidades culturais localizadas em diversos estados brasileiros e até em Londres, na Inglaterra.

Recebeu mais de 100 prêmios de participação em concursos literários. Publicou os livros de poesias Arco-Íris do Amor (1994) e Chuva Lirial de Trovas (1997). Tem trabalhos divulgados em 50 antologias e em cerca de 100 edições de jornais, revistas, boletins literários, programas de rádio e
artigos na internet, na maioria dos estados brasileiros.

É editora do Poenísia, um boletim literário sobre autores cantagalenses e trovadores brasileiros. Aos 90 anos, a simpática senhorinha mora em uma das casas mais antigas da cidade e faz parte da família Chevrand. “Meu bisavô, Luis Antonio Chevrand, foi um dos primeiros escravagistas do Brasil a
libertar os filhos dos seus escravos”, conta orgulhosa. 

Henny aprendeu a ler sozinha e começou a escrever poesias aos 17 anos. E continua escrevendo, além de ser colaboradora da biblioteca municipal e pesquisadora da história da cidade. Henny  também cultiva o hábito, já popular na cidade, de presentear  amigos e moradores cantagalenses com poesias e trovas escritas em bilhetinhos que ela mesma envelopa e entrega ao destinatário. Tem muitas trovas foram dedicadas a sua cidade natal e ao filho  ilustre de Cantagalo, Euclides da Cunha.”
( extraído de Mapa de Cultura RJ -
http://mapadecultura.rj.gov.br/cantagalo/henny-kropf/)

Ilustração : Di Magalhães
http://dimagalhaesstudiologspot.com.br/

sábado, 12 de abril de 2014

POUSOU UMA BORBOLETA...

Margaridas-com-Borboleta

Pousou uma borboleta
na minha cama vazia,
como uma flor violeta
sobre uma campa sombria

Humberto Del Maestro

Nascido em Vitória, Espírito Santo, no dia 27 de março de 1938, Humberto Del Maestro, poeta, teatrólogo, ator, bancário aposentado, intelectual, pensador, produtor cultural, cronista, ensaísta, contista, trovador, crítico literário, é autor de inúmeros livros, entre os quais, “Poesias modernas,” “O tesouro,” “O sonho dos séculos,” “Poesias,” “Contos  Impossíveis ...?” “Aloendros,” “Sonhos e Canções e Breves,” “Trovas, Haicais e outros poemas,” “Dísticos” e tantos outros já publicados, além de participar de algumas dezenas de antologias espalhadas pelo Brasil.

Membro da Academia Espírito-santense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, associado do Postal Clube, do Rio de Janeiro e colaborador efetivo da revista alternativa A FIGUEIRA, de Florianópolis – SC. É detentor de vários prêmios, entre outros, Melhor Poeta Nacional de 1997, Embaixador da Poesia do Brasil 2000. É verbete da ENCICLOPÉDIA DE LITERATURA BRASILEIRA, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, edição do MEC, 1990, com revisão de Graça Coutinho e Rita Moutinho Botelho, ( fonte : http://www.oocities.org/humbertodelmaestro/)

O CANTO DA PASSARADA

Encontro a rua molhada,
mas um sol ao longe, vejo,
e o canto da passarada
traz as delícias de um beijo

Humberto Del Maestro

terça-feira, 1 de abril de 2014

ANIMAIS



Referências a animais aparecem já nas primeiras obras da literatura de informação sobre o Brasil, desde a Carta de Pero Vaz Caminha aos cronistas dos séculos XVI e XVII. 

A poesia não ficou isenta desse entusiasmo pelas grandezas da terra. Para objetivar seus ensinamentos, o Padre Anchieta comparava virtudes e defeitos humanos ao comportamento dos animais, o mesmo fazendo Gregório de Matos, com relação aos vícios da sociedade baiana.

É porém,no século XIX que se vai encontrar o primeiro grande animalista da literatura brasileira: José de Alencar. Em "O Guarani" e "Iracema", a paisagem se aviva de animais de toda a espécie.Em "Iracema", Japiri,o cão e a Arara que acompanham a jovem índia participam ativamente da história.

Nos seus romances regionalistas,os animais ganham especial relevo,como em O Gaúcho e O Sertanejo. 

Os poetas românticos identificam seus estados sentimentais com alguns pássaros.O canto do sabiá lembra a terra distante e saudosa de Gonçalves Dias,enquanto a juriti é um símbolo da doçura amorosa,na poesia de Casimiro de Abreu,Fagundes Varela ou Castro Alves.

Rolando Morel Pinto
in: Os Animais na Literatura Brasileira,Dicionário de Literatura,1º volume,3ª edição,1979,Figueirinhas,Porto.

sábado, 15 de março de 2014

POETAS DO BRASIL

São Paulo 

Quando o vento enlaça a rosa
num amoroso queixume
ela, fremente e dengosa
nele esparge o seu perfume

Maria Thereza Cavalheiro 

ilustração: Marco Angeli
http://angeliretratosdavida.blogspot.com.br

MARIA THEREZA CAVALHEIRO nasceu em São Paulo/SP a 25 de janeiro de 1929. Coincidentemente faz aniversário junto com sua cidade. Escritora, poetisa, advogada, jornalista, tradutora e ecologista. 

Vários livros publicados: entre outros, em 1960 lançou "Antologia Brasileira da Árvore"; em 1989 publicou "Segredos do Bom Trovar - Como fazer Trova - Exemplos práticos" e, em 2009, "Trovas para Refletir".

Como dirigente, foi co-fundadora e a primeira presidente da UBT (União Brasileira de Trovadores), seção São Paulo, em 11.09.1969, que esteve sob sua batuta até 1976, quando se afastou por problemas de saúde. 

Publica, desde 1973, em vários jornais e revistas da capital paulista, a coluna "Trovas", estendida depois a "O Radar", de Apucarana/PR, e "Bali", de Itaocara/RJ.

Traz a poesia no sangue. Não por acaso é sobrinha/neta de Yde Schloenbach Blumenschein que, literariamente é a célebre Colombina, que aprendemos a admirar, fundadora e presidente perpétua da "Casa do Poeta "Lampião de Gás" de São Paulo. 

saiba mais em http://www.falandodetrova.com.br/therezacavalheiro