sexta-feira, 4 de julho de 2014

UMA CERTA ARTE

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A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.

Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.

Elizabeth Bishop
(tradução de Nelson Ascher)

Do livro : ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.)

Ilustração: Iderval Tenório

quarta-feira, 25 de junho de 2014

BORGEANO

DOUGLAS OKADA - No sítio pela manhã - Óleo sobre tela - 40x50cm

Manhã de domingo.
Visito Os Olhos de Borges
(*)
para sentir-me vivo.

Embora manhã
de pólen e sol
há sombras na brancura dos lírios.

A tristeza reside
naquilo que vejo
e não me pertence.

E meus olhos divisam
domingo de giz
na morte das horas.

(*) Livro do poeta Jaime Vaz Brasil
Lari Franceschetto

Ilustração: Douglas Okada

terça-feira, 17 de junho de 2014

Biblioteca recebe nome de Larí Franceschetto

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Em 2013, no dia 11 de novembro,  foi realizada a solenidade que oficializou o nome da biblioteca da Escola Municipal de Ensino Fundamental Senador Alberto Pasqualini de Biblioteca Larí Franceschetto.

O evento contou com a presença de familiares do poeta, a secretária municipal de Educação e Cultura, Elis Regina Perachi Favero, o presidente da Câmara de Vereadores de Veranópolis, Moisés Pertile, e os vereadores Irineu Machado dos Santos, Lirio Soares, Luis Carlos Comiotto, Rudimar Caglioni e Vladis José Scorsatto, a diretora da escola, Ivete Grando, professores, funcionários e alunos do educandário. Na oportunidade, uma aluna leu o histórico do homenageado e um grupo de alunas encenou a obra ‘Fotografia’, de Larí.

O nome da biblioteca foi definido por um Projeto de Lei Legislativo, de autoria de todos os vereadores, como uma forma de homenagear o poeta e jornalista que faleceu no mês de fevereiro e deixou um legado de sucesso.

Confira fotos da solenidade e outras informações em
https://www.facebook.com/media/set/?set=a.619518091423408.1073741985.136831159692106&type=1

quarta-feira, 11 de junho de 2014

ADEUS

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Adeus, meu amor, logo nos desconheceremos. Mudaremos os cabelos, amansaremos as feições, apagarei seus gostos e suas músicas. Vamos envelhecer pelas mãos. Não andarei segurando os bolsos de trás de suas calças. Tropeçarei sozinho em meus suspiros, procurando me equilibrar perto das paredes. Esquecerei suas taras, suas vontades, os segredos de família. Riscarei o nosso trajeto do mapa. Farei amizade com seus inimigos. Sua bolsa não se derramará sobre a cadeira. Não poderei me gabar da rapidez em abrir seu sutiã. Vou tirar a barba, falar mais baixo, fazer sinal da cruz ao passar por igrejas e cemitérios. Passarei em branco pelos aniversários de meus pais, já que sempre me avisava. O mar cobrirá o desenho das quadras no inverno. As pombas sentirão mais fome nas praças. Perderei a seqüência de sua manhã - você colocava os brincos por último. Meus dias serão mais curtos sem seus ouvidos. Não acharei minha esperança nas gavetas das meias. Seus dentes estarão mais colados, mais trincados, menos soltos pela língua. Ficarei com raiva de seu conformismo. Perderei o tempo de sua risada. A dor será uma amizade fiel e estranha. Não perceberei seus quilos a mais, seus quilos a menos, sua vontade de nadar na cama ao se espreguiçar. Vou cumprimentá-la com as sobrancelhas e não terei apetite para dizer coisa alguma. Não olharei para trás, para não prometer a volta. Não olharei para os lados, para não ameaçá-la com a dúvida. Adeus, meu amor, a vida não nos pretende eternos. Haverá a sensação de residir numa cidade extinta, de cuidar dos escombros para levantar a nova casa. Adeus, meu amor. Não faremos mais briga em supermercado, nem festa ao comprar um livro. Não puxaremos assunto com os garçons. Não receberemos elogios de estranhos sobre nossas afinidades. Não tocaremos os pés de madrugada. Não tocaremos os braços nos filmes. Não trocaremos de lado ao acordar. Não dividiremos o jornal em cadernos. Não olharemos as vitrines em busca de presentes. O celular permanecerá desligado. Nunca descobriremos ao certo o que nos impediu, quem desistiu primeiro, quem não teve paciência de compreender. Só os ossos têm paciência, meu amor, não a carne, com ânsias de se completar. Não encontrará vestígios de minha passagem no futuro. Abandonará de repente meu telefone. Na primeira recaída, procurará o número na agenda. Não estava em sua agenda. Não se anota amores na agenda. Na segunda recaída, perguntará o que faço aos conhecidos. As demais recaídas serão como soluços depois de tomar muita água. Adeus, meu amor. Terá filhos com outros homens. Terá insônia com outros homens. Desviará de assunto ao escutar meu nome. Adeus, meu amor.

Fabrício Carpinejar

Ilustração: Sérgio Helle

quarta-feira, 28 de maio de 2014

INTERCÂMBIO - EMAILS

No post de hoje, poemas extraídos de emails enviados para o fanzine Versos Livres, editado em Guarulhos. Textos, críticas e sugestões, serão benvindos em touche.sp@uol.com.br 

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ERA CARNAVAL
Adélia Einsfeldt

No carnaval de outras eras
quem eras, como eras?
eras Palhaço ou Arlequim?
quem sabe eras o anjo Querubim!
nem sei na verdade quem eras.
Tua máscara escondia
teu rosto eu não via
já era quase dia
eu ainda não te conhecia...
Muitos anos passaram
quando numa tarde
plantando flores no meu jardim,
ouvi uma música de carnaval
lembrei do carnaval de outras eras,
a emoção tomou conta de mim
Chorei!

adeliaeinsfeldt@yahoo.com.br
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NOITE FEBRIL
Welington de Sousa

Por hora
teu gosto amargo me basta
e todo silêncio é bem vindo
cerveja bem gelada carne mal passada
um canto qualquer ...um cão vira lata
e se puder um blues vagabundo
de alma penada...

sem dó nem pena
em qualquer encruzilhada
pra que eu me sinta um pouco melhor
esculpindo as palavras que tua boca deixou
no canto vazio daquela noite febril.

São Gonçalo - RJ -

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VIVER É UMA AVENTURA
Cecília Fidelli

Viver é uma aventura,
é sempre mais um passo,
mesmo que seja rastejante.
Constantes alturas, muitos tombos.
As noites...
foram feitas pra mim.
Na verdade, fomos feitas uma pra outra.
Durmo insônias em versos sem fim.,
acreditando que estou fazendo a coisa certa.
A vida é um paraíso de embates constantes.
Nos jardins dos meus caminhos,
toda hora é hora de partir.
As noites seguem.
A vida segue,
por isso é que a gente tropeça
e quase sempre... enlouquece.
Se fôsse tudo direitinho,
sem momentos de gritos,
não haveriam chôros
que nos trouxessem sorrisos.

in memoriam

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REINVENTEI SILÊNCIOS
Harley Meireles

reinventei silêncios
desespero tempo
na calada da sua boca
gritos de carbono

acordes de giz - 2010

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Recebemos ainda os links das entrevistas do escritor e dramaturgo
Paulo Mohylovski - mohylovski@bol.com.br; :

entrevistas com Marcilio Moraes e Joeli Pimentel
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/pcruzadas_marciliomoraes_dez10.htm
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/pcruzadas_joelipimentel_dez10.htm

segunda-feira, 19 de maio de 2014

INTERCÂMBIO - CORRESPONDÊNCIA

No post de hoje, poemas extraídos da correspondência postal enviada para o fanzine Versos Livres, editado em Guarulhos, SP. Textos, críticas e sugestões podem ser enviados para touche.sp@uol.com.br

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ALMA DO VINHO
Francisco Carvalho

O amor é alma do vinho
que passeia nas adegas.
O cristal de que ele é feito
não se parte nem se quebra.

É uma taça de chamas
com que o céu nos golpeia.
Um cálice de veneno
entre as orquídeas da ceia

O amor nos presenteia
com o seu diadema.
A fagulha que incendeia
o esqueleto do poema

( Em: "Esquinas do Tempo")

Francisco Carvalho é poeta e crítico literário. Membro da Academia Cearense de Letras.

Poema publicado na edição nº 126, do caderno literário "Binóculo", enviado por seus editores Dias da Silva e Batista de Lima, Jbatista@unifor.br , fone: (85) 3279.1752

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PRIMAVERA
Ademir Antonio Bacca

os vôos
de todos os pássaros
parecem partir
de dentro de mim

quantos chegaram
ao seu ninho ?

Em: Cotiporã Cultural, nº 43, gentilmente enviado pelo seu editor, o nosso amigo Adão Wons. Saiba mais em www.adaowons.blogspot.com

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RECUSO-ME
Viviane Schiller Balau

Recuso a acreditar
Que você partiu e o que
restou foram apenas lembranças
De nossas carícias de amor

E recuso a apagar os momentos
De felicidade que vivemos juntos

Também me recuso a dizer
Um basta para essas loucuras que cometi

jobalau@uol.com.br

Publicado na folha cultural "Farroupilha", editado por Leonel Dutra V. Lopes, Viviane M. Lopes Viana, contatos : Caixa Postal 123, Taquari, RS, 95860.000, insanityrock@taquari.com.  Enviado por Adão Wons.

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REMINISCÊNCIAS
Larí Franceschetto

O último apito
do último trem
na última curva
ainda ecoa no menino de ontem.
No menino de hoje
a retina cansada
destila saudade.
O primeiro trem
que viu passar
ainda passa;
o último também.

Dói, também
igual aquele retrato na parede
Drummond....

in memoriam. O amigo Larí nasceu em Veranopólis/RS, onde também faleceu. Tinha na literatura uma de suas grandes paixões, desde a adolescência. Participou de mais de 100 coletâneas em prosa e verso Brasil afora. Também foi muito premiado no Brasil e no exterior. Estreou em livro solo com a obra " Espelho das Águas".
Esse poema ele me enviou em uma carta de junho de 2012,  informando que o mesmo integrava a coletânea "Arabescos", Santa Maria, RS, 2012.  O grande poeta viria a falecer em 2013.