terça-feira, 26 de agosto de 2014

ND EKO PORAN ?

em um canto da cidade

Ninguém mais me diz
que tenha lido um livro de poesia.
Que saiba recitar uma sequer frase
de Cecília Meirelles ou de Drummond.
Nem isto, nem aquilo.
Só o crime do dia anterior
Renovado pelo de agora.
Só o sequestro bem sucedido
Ou o bebê oferecido num ritual satânico.

Meu amigo de coração pueril
quando de passeio,
desembarcou em São Paulo
Perquirindo se todo aquele ajuntamento
era sinal de briga.
Era São Paulo, incansável e cosmopolita.
De onde veio meu amigo,
Gente só junta
Quando vaca brava invade a rua,
Quando cachorro doido morde
criança indefesa
Ou lobisomem sai da toca,
esquecendo que não chegou agosto

Tom

A frase "Nd Eko Poran" significa  "Você está bem ?", em tupi- guarani.

Ilustração : Miguel Angelo 
http://ateliemiguelangelo.blogspot.com.br/

Saiba mais sobre o poeta Tom em http://letrastaquarenses.blogspot.com.br/2014/04/tom-tomzine-de-frei-gaspar-para-os.html

Confira outros poema do grande poeta de Frei Gaspar em https://tomzine24.wordpress.com/

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

POETAS DO BRASIL

MINAS GERAIS

MAURO FERREIRA - Riacho na Zona da mata, MG - Óleo sobre tela - 46 x 75

O grosso da espécie humana
Lembra platéia infeliz
Ao ator que mais a engana
não cessa de gritar "Bis".

José Fabiano
Belo Horizonte/MG

Ilustração: MAURO FERREIRA - Riacho na Zona da mata, MG. Óleo sobre tela - 46 x 75

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

INTERCÂMBIO - CORRESPONDÊNCIA

No post de hoje, poemas extraídos de alguns dos emails enviados para a redação do Versos Livres. Textos, criticas e sugestões serão benvindos no email touche.sp@uol.com.br

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O PRIMEIRO PASSO DE UM BÍPEDE
Dieter Droos

o primeiro passo de um bi-péde .

só o segundo passo liberta :
com o primeiro
um pé ainda fica preso no passado

dieterroos@yahoo.de

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POETA ABEL B. PEREIRA
Teresinka Pereira

Já não é preciso
chorar nem cantar
seu desencanto.

O sacrificio de seu vôo
sobre a terra não deixou
a página em branco.

Consagrado já era em vivo,
imortal será de agora
em diante
em nossas vozes.

tpereira@buckeye-express.com
(O saudoso poeta Abel Pereira, faleceu em 1 de março de  2011)

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O PASSAGEIRO
Bertolt Brecht 

Quando, há alguns anos
Aprendi a dirigir um carro, meu instrutor
Me fazia fumar um charuto; e quando
Na confusão do tráfego ou em curvas difíceis
O charuto apagava, ele me tirava o volante.

Também contava piadas, e se eu não sorria
Muito ocupado com a direção, afastava-me
Do volante. Eu estava inseguro, dizia ele.
Eu, o passageiro, me apavoro quando vejo
O motorista muito ocupado com a direção.

Desde então, ao trabalhar
Cuido para não ficar absorvido demais no trabalho.
Dou atenção a muitas coisas em volta
Às vezes interrompo o trabalho para Ter uma conversa.
Andar mais rápido do que o que me permite fumar
É algo que já não faço. Penso
No passageiro.

enviado pelo Centro de Estudos Políticos e Culturais CEPEC
www.cepec.org3@gmail.com;

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atuamos-cleo 

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ONIPOTÊNCIA
alaorpoeta

Quando criança brincávamos
de ser gente importante
do mundo dos adultos.
Um dia fui Deus...

Enquanto José erguia cidades
Maria trocava fraldas
eu abobalhava uma formiga
numa caixa de fósforos redonda
azul vista do espaço
e dizia: - Comece a rezar!

Deixava um curto escape
de liberdade. Mas advertia:
- Só quando eu quiser!
Então a formiga, sempre,
porque era formiga
e não sabia o que fazia
desafiava pelo orifício
seu cérebro de saudade
e com olhos de finitude
lograva a consciência
na guilhotina de Deus.

Nunca entendi o despropósito
daqueles seres ínfimos
a corroer minhas dúvidas
porque jamais me deixaram
brincar de ser formiga.

Quando cresci
virei formiga de verdade.

Alaor Tristante Júnior
http://alaorpoeta.blogspot.com.br

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INDIGNAÇÃO
Almandrade

Passatempo ordinário
...
depois a humilhação
vem o envelhecimento
o repouso é inesperado
esterilidade da emoção
provável decadência
...
enfim as incertezas.

linguagemviva@linguagemviva.com.br

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Ilustração: Ekaterina Panikanova,

domingo, 3 de agosto de 2014

Belô Poético deixa saudades e lições

Folder Belô Poético

O Belô Poético deixa saudades e lições de que é possível empreender cultura e literatura com cooperação, mais calor humano que capital, mais positividades que poderes, no âmbito dos indivíduos e sociedade civil.

Bertold Brecht, poeta e dramaturgo alemão, escreveu:

Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis

Durante um decênio, o Belô Poético contou com esses três tipos: houve aqueles que ajudaram num episódio e foram bons, houve aqueles que integraram comissão organizadora ao longo do ano, e esses foram melhores. Houve ainda aqueles que desde 2005, quando do 1º Belô, ajudam na organização, e esses foram muito bons. E há pessoas como Rogério Salgado e Virgilene Araújo, que lutam a vida inteira, esses são imprescindíveis. 

Muitos de nós, somos “carona”, usufruindo do esforço alheio, mas me consola saber que engajamento não se obriga e que todos somos seres em evolução moral. Em breve relato, o poeta Rogério Salgado nos contou sobre caso exemplar, que explicita bem a responsabilidade de cada um. Certa vez, foi organizado um sarau com o objetivo de arrecadar donativos, apareceu um ou dois poetas; mas quando se organizava um sarau convencional, com pompa e aplausos, abundavam.

O Belô passa uma lição que serve para todos os grupos literários, qual seja, de que por mais que haja uma injustificada competição, neste precário campo das letras, ela nunca será melhor que a cooperação, o congraçamento literário, afetivo, humano, que é besteira brigar por migalhas, que estamos no mesmo barco, e que é melhor matar saudades que favorecer disputas e desgastes, sem também forçar amizade.

Outra lição é que, de fato, há ciclos na vida, assim como há ciclos naturais, de forma que um fim nunca é um fim em si mesmo, mas o começo de algo novo. É isso o que quis transmitir o palestrante Paulo Pina, na abertura do 10º Belô Poético, em oratória impecável de linha humanista-cristã, que muito me agradou. Ao longo da vida, trocamos de pele, renovar é um movimento irresistível, a fim de manter a saúde.

            O Belô serve de exemplo de que é possível empreender efemérides, publicações, solidariedade, através do cooperativismo artístico, onde todos saem sentindo-se engrandecidos e realizados. Dado o exemplo, agora, cada um de nós pode caminhar com as próprias pernas, sendo a autonomia do indivíduo outra lição do Belô. Ensinar a pescar e engravidar possibilidades, como diz o poeta Diovani Mendonça, homenageado na abertura do evento, assim como Severino Iabá, multiativista.  

Como se não bastasse, outra lição do Belô é da importância do intercâmbio cultural com movimentos, grupos e pessoas de outras cidades, fora do nosso espectro geográfico-mental. É uma forma de desengessar o olhar, arejar a cabeça, conhecer novas culturas, experiências, possibilidades, sendo o último dia de todos os dez episódios do evento, dedicado a um passeio fora de Belo Horizonte, com saber e sabor.

O aspecto humano também é importante ser ressaltado: o Belô Poético, geralmente chamado de “evento”, sempre foi mais do que isso, isto é, ele nunca foi efêmero propriamente, mas sempre uma continuidade de uma irmandade poética, um constante reencontro de poetas esperado todos os anos, algo que durava dentro de cada um. Também não era mais um evento fast-food (acabou, passou), estandardizado, espetacular, mas poroso às contingências e sensibilidades, mais humano. Os participantes, ao final, senão transformados, saíam sensibilizados, solidarizados, irmanados. Já os organizadores, cansados, mas cansaço bom, de quem travou o bom combate, que merece nosso apreço e compreensão. 

A melhor forma de ser fiéis ao espírito emanado do Belô Poético, talvez seja aprendermos a caminhar com as próprias pernas como indivíduos e sociedade civil; cooperados, que isolados nada realizamos; arrefecer egotismos e cultivar virtudes; sair do comodismo atrofiador, obrar o bem. Tempo foge, vida passa, ‘vai a idade’, o Belô nos deixa sim saudades, mas também exemplo aos nossos empreendimentos e desdobramentos presentes e futuros.

Vinícius Fernandes Cardoso,
Poeta, 28/07/2014

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Rogério Salgado e Virgilene Araújo.

domingo, 27 de julho de 2014

Cantiga dos Moleques Fruteiros

Severin-Roesen-Still-Life-with-Fruit-10-

Pedrinho tem fome de mato,
das frutinhas que tantas dão por lá:

Cajuí, taperebá, araticum e cajá
Cambuci, guabiroba, cagaita e maracujá

Juca menino erradio
pulou a cerca do sítio,
e lá se foi, frutas a roubar:

Pindaíva, marôlo, sorvinha e biribá
saguarají, feijoa, sapoti e joá

Gustinho não poupa ninguém
nem atina se a fruta é veneno;
se tem polpa pouca
ou se nem polpa tem,
a de vez ele come,
a passada também:

Mangaba, guriri, tucum e butiá
uarutama, bacupari, marmelinho e ingá

Renato é um bicho-do-mato:
chafurda nas matas,
rompe pelos florestins
sabe o tempo de cada fruta,
e deita sozinho a fazer seus festins:

Babaçu, inajá, catolé e bacuri
sapota, cupuaçu, araçá e cacauí

Fernandinho é moleque mateiro:
gosta é de pelar pé de árvore
no pomar da avó.
É fruta que não acaba tão cedo
e lá vai ele, arteiro, trepar no arvoredo:

Grumixama, cubíu, marmixa e abiu
guaburiti, pitangatuba, murtinha e camu-camu

Saltam riacho, cerca de roça,
mata fechada e o que se lhes dá;
Comem de tudo e tudo sem pressa,
sorvendo o bom doce de tudo o que há:

Acumã, pequiá, jameri e jaracatiá

aboirana, curriola, fruta-de-tatu e cambuiú.

Sammis Reachers

Azul Caudal
http://azulcaudal.blogspot.com.br/

Ilustração: Severin Roesen (1815-1872, Germany)

terça-feira, 15 de julho de 2014

QUISERA O AMOR FOSSE FÁCIL

Julio-Romero-De-Torres-_Tristeza-Andaluza-also-known-as-Melancholy-_

QUISERA O AMOR FOSSE FÁCIL,
COISA DE APENAS UM DIA,
QUE PASSASSE NUM LAMPEJO
QUE FOSSE APENAS SEXO E ORGIA.

QUISERA NÃO FOSSE SENTIMENTO,
QUE TREME PERNA E CORAÇÃO,
QUISERA O AMOR FOSSE FÁCIL,
FOSSE FRACO DE INTENÇÃO.

FOSSE LEVADO A REBOQUE,
FOSSE TIRADO NUM BANHO,
FRÁGIL COMO MAQUIAGEM,
FOSSE PEQUENO EM TAMANHO.

FOSSE DOR QUE DÓI BEM POUCO,
FOSSE FÁCIL DE FALAR,
QUISERA FOSSE TIRADO,
DA LITERATURA O VERBO AMAR.

VALENTINA FRAGA

Ilustração: Julio Romero De Torres

Confira outros textos da grande Valentina em http://www.usinadeletras.com.br/exibelotextoautor.php?user=VALENTINA

Acompanhe o blog de Valentina Fraga em http://valentinafraga.blogspot.com.br

sexta-feira, 4 de julho de 2014

UMA CERTA ARTE

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A arte da perda é fácil de estudar:
a perda, a tantas coisas, é latente
que perdê-las nem chega a ser azar.

Perde algo a cada dia. Deixa estar:
percam-se a chave, o tempo inutilmente.
A arte da perda é fácil de abarcar.

Perde-se mais e melhor. Nome ou lugar,
destino que talvez tinhas em mente
para a viagem. Nem isto é mesmo azar.

Perdi o relógio de mamãe. E um lar
dos três que tive, o (quase) mais recente.
A arte da perda é fácil de apurar.

Duas cidades lindas. Mais: um par
de rios, uns reinos meus, um continente.
Perdi-os, mas não foi um grande azar.

Mesmo perder-te (a voz jocosa, um ar
que eu amo), isso tampouco me desmente.
A arte da perda é fácil, apesar
de parecer (Anota!) um grande azar.

Elizabeth Bishop
(tradução de Nelson Ascher)

Do livro : ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.)

Ilustração: Iderval Tenório