quarta-feira, 8 de abril de 2015

Macacos e Monstros



Cantos de cigarras cortam a tarde
Cortam lenha porque o gás acabou
Cortam o céu danças de andorinhas
Contam anedotas amamentando a vida

Mulheres com bindis nas esquinas
De Arroio do Sul e de Santa Maria
Corto as unhas do pé esquerdo
E conto-me histórias de marinheiro
Que o mar sepultou

Pinto poemas na areia, que o tempo
não devora. A noite na janta tem
Lulas, arroz e luas

Corta-me o coração o cãozinho branco
De um branco de alma, abandonado
e chorando, num canto de pátio vazio

Quantos macacos estão, carinhosamente,
Agora, cuidando de seus filhos,
E quantos homens, há tempos,
Matando seus próprios  irmãos

Larí Franchescetto

In: Jornal O Capital, ano XXI, nº 207, setembro, 2011





segunda-feira, 6 de abril de 2015

Canção do Amor Imprevisto

















Eu sou um homem fechado.
O mundo me tornou egoísta e mau.
E a minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar.

Mas tu apareceste com a tua boca fresca de madrugada,
Com o teu passo leve,
Com esses teus cabelos…

E o homem taciturno ficou imóvel, sem compreender nada, numa alegria atônita…
A súbita, a dolorosa alegria de um espantalho inútil
Aonde viessem pousar os passarinhos.

( Mario Quintana )

Ilustração: Sérgio Astral 

segunda-feira, 30 de março de 2015

A PRIMEIRA ANTOLOGIA

A primeira antologia da literatura brasileira é o Parnaso Brasileiro, publicada de 1829 a 1832, por Januário da Cunha Barbosa. A obra teve êxito e animou vários críticos brasileiros a iniciativas semelhantes e com o mesmo objetivo: dar aos brasileiros a consciência dos valores literários nacionais.

Explica-se,assim, o aparecimento, no século XIX, de grande número de antologias, dentre as quais se podem apontar, como mais importantes, as de Pereira da Silva, Francisco Adolfo Varnhagem e Melo Morais Filho.

Com o desenvolvimento, a partir do fim do século XIX, do ensino médio brasileiro, surgiram as antologias escolares. 

Januário da Cunha Barbosa foi presbítero no ano da chegada da família real portuguesa ao Brasil; lecionou filosofia moral e racional em 1814; foi Cônego na Capela Imperial em 1824 e deputado pelo Rio de Janeiro em 1826; diretor da tipografia nacional e do diário fluminense; partidário e defensor de D. Pedro I. 

A partir de 1835, deixou a política para destinar-se às atividades intelectuais; lutou por conquistas democráticas. Em 1839, foi diretor da Biblioteca Nacional. E fundou, em 1838, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 
( fonte: Dicionário de Literatura, direção de Jacinto do Prado Coelho, 1979, Figueirinhas, Porto, Lavra Livros Ltda) 

sábado, 14 de março de 2015

FILHOS DA ÉPOCA













Somos filhos da época
e a época é política.
Todas as tuas, nossas, vossas coisas
diurnas e noturnas,
são coisas políticas.
Querendo ou não querendo,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um aspecto político.
O que você diz tem ressonância,
o que silencia tem um eco
de um jeito ou de outro político.
(...)

Wislawa Szymboraka,
Poemas.


publicado no face de Vanna Viana

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

INTERCÂMBIO

No post de hoje, mais alguns poemas extraídos da correspondência enviada para a redação do Versos Livres. Textos, criticas e sugestões serão benvindos no email touche.sp@uol.com.br 


ODE A COPA DO MUNDO NO BRASIL
Paulo Silva 

Lágrimas de um povo
Os de baixo da pirâmide
Na longa sombra da ganância
Esconde a mutilação da vida
(Anigav/Sujeira - povo boliviano ferve! – como eles
dizem e pixam pelas ruas: Fuzil, metralha, o povo não
se cala!)

-

ODE A ÚLTIMA SEMENTE
Paulo Silva 

Na plantação de jaz
Os pássaros constroem chips para controle Uno
As abelhas arrumaram emprego em fabricas de ondas
curtas
Os beija-flores vendem flores nas esquinas da vida
A semente brota
Tatuada em seu caule
Prazo de validade
(Anigav – Boicote a Monsanto – Kem controla a
comida controla tudo)

-

ODE A KEM CONTROLA A COMIDA
CONTROLA TUDO
Paulo Silva 

Ao passar pela plantação
Indo em direção
A busca dos cindo As
A pekena pombinha
Mudou seu curso
Pois o semeador semeava
Veneno ao invés de alimento.
(Anigav – Viva o alimento orgânico)

Paulo Silva 
poemas extraídos do livreto Floresta no Asfalto 
dadazdawa@hotmail.com; 




domingo, 1 de fevereiro de 2015

Nélida

nelidapinonimages

"..a gloriazinha fácil não me interessa, essa glória atada com esparadrapos ou arames farpados. Minha obra não tem preço: eu acredito noutro tipo de investimento, que não se paga. Acredito na função social do escritor e é essa crença que sustenta sete ou oito versões do meu texto, o meu alimento diário.

Sou muito ambiciosa, tenho a propriedade de fazer mil combinações verbais. Luto com a palavra, e eu sei que ela é transitória. Quando não consigo a definitiva, quando não tenho outra saída, outra paixão, então eu compreendo que aquela palavra terá que ficar.

Só despacho o texto quando sinto que o dominei temporariamente, quanto sinto uma coisa muito profunda dentro de mim. Eu não me deixo sucumbir pela tentação..."  (Nélida Piñon, em entrevista a Norma Couri, revista Escrita, nº 4)