Recebemos do amigo e escritor Aricy Curvello , o livro "A Arte Poética de Aricy Curvello,"
de Cleber Pacheco, segunda edição revista e ampliada, livro que recebeu a
Medalha de Ouro da Academia Brasileira de Pesquisas Literárias e que contém a
análise de todos os livros do poeta . Agradecemos o envio .
Aricy é de Uberlândia, MG,
Poeta, ensaista e tradutor. Durante a ditadura militar sofreu prisões e
perseguições. Participou intensamente de publicações e movimentos literários em
Minas, Rio, S. Paulo e outros Estados.
(https://pt-br.facebook.com/public/Aricy-Curvello)
Sobre o livro de Cleber, Rubens Jardim comenta: "Nesta
edição incluiu estudos a respeito dos primeiros livros de Aricy Curvelllo (...)
É justo ressaltar que o livro de estreia teve ótima acolhida por críticos da
pesada como Fábio Lucas, Edgard G. da Matta Machado , Hermann Reipert, Waldemar Cavalcanti".
Cleber Pacheco, escritor e crítico, é Mestre em Literatura
Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul . (http://livrosdecleberpacheco.blogspot.com.br)
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TRECHOS :
POESIA EM
MOVIMENTO OU O POETA ALQUIMISTA
"Ser é uma invenção constante" nos diz o poeta Aricy Curvello e com
tais versos resume parte de sua poética. Para o autor, não somente a forma é
provisória,perecível,constanto fluxo. O próprio Ser é movimento.
O Ser,portanto, está inteiramente ligado à Criação, o eterno
Ir e Vir.
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A FUNDAÇÃO DE UMA POÉTICA
"A palavra é rio e fio,fluxo,movimento,onde será
realizada a travessia, a passagem, tornando possível a criação.Ela é renovação
e também tentativa de fixar o fluído.
Para realizar essa travessia é preciso violar
portas,muros,alicerces. É preciso sacudir,explodir,romper limites, vencer o
sufocamento , a podridão,o retrocesso, o silêncio.
Poder-se-ia dizer, aliás, de que a única épica possível no
mundo contemporâneo é a construção de uma arte poética própria. Ela exige não
só o conhecimento da história literária como um posicionamento diante da vida e
do mundo, bem como uma atitude em relação a este."
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A QUESTÃO DA LINGUAGEM NA POESIA DE ARICY CURVELLO
" O
homem é homem graças à linguagem."
(Otávio Paz)
"Durante a leitura podemos perceber que o poeta
busca a fundamentação da identidade do humano. Ele aborda a necessidade de
criação, de construção, o instinto de vida que nos impulsiona a fazer, refazer,
recomeçar e recuperar aquilo que parece inacessível ou perdido devido tanto ao
caos inicial e ao desconhecido, quanto a inexorável passagem do tempo.
Esta busca pela identidade se dá por meio da palavra. Graças a
ela lidamos com o insondável Mistério, como Desconhecido, o Caos, o
Pré-Histórico, podemos lidar com os mundos interno e externo, buscamos a nossa
pátria, tanto no sentido literal quanto no de um lugar que serve de referência para nós seres humanos.
No binômio palavra-realidade está
presente também o medo do desconhecido. A palavra é ainda imagem que desafia o
escuro, o vazio, o disperso tentando dar-lhes alguma coerência e ordem, lidando
sempre com o limite.
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A QUESTÃO DA LINGUAGEM NA POESIA DE ARICY CURVELLO (II)
Diz
Umberto Eco (1986, p. 73) " A linguagem é o próprio fundamento da
cultura."
O poeta torna-se, então, o
discursador, pois ele nomeia o que some, o fugaz. Ele preenche um importante
papel, pois não há heróis ou
intérpretes. O poeta situa-se entre o calar e o falar. Ele e a linguagem
elaboram o fundamento, a construção do humano e do real.
É preciso ultrapassar
o silêncio e o interdito, vencer a paralisia, a ditadura, a burocracia, o
imperialismo, a imobilidade e refazer, como um operário, a casa, ou como um
soldado, o caminho. É fundamental recomeçar, passando sempre pelo processo
morrer-renascer, renovando a história, fazendo-a avançar. A vida é um eterno
recomeçar.
Como diria Alfredo Bosi ( 1983, p 21 ) " O fenômeno
verbal é uma conquista na história dos modos de franquear o intervalo que
medeia entre corpo e objeto."
Afinal de contas, conhecimento é só linguagem. O movimento, o
efêmero nos move. É preciso compreender que é breve a busca do lugar-pátria. É
a linguagem que nos vive.
Os dicionários e enciclopédias são os alicerces.
Afirma Otávio Paz (1982, p 37 ) " A palavra é o próprio
homem. Somos feitos de palavras." ( In: )
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UM POEMA DE ARICY CURVELLO
Às
vezes
o substantivo carece
de mais substantivos
o verbo de verbos
verbos de advérbios
as palavras fazem crescer o mundo
mas a língua não é a realidade
nem a arte se assemelha à natureza
criam outra
realidade que expande a realidade
(às vezes)
no branco da página
( Mais
que os Nomes do Nada, 1996)